Criaturas Terríveis para Rastro de Cthulhu: Abissais, sob uma nova perspectiva


O mar esconde muitos segredos e abriga criaturas ancestrais, alimentando a curiosidade humana desde sua origem. H.P.Lovecraftsoube como ninguém explorar o desconhecido guardado sob águas profundas, com seus contos onde mencionava Cthulhu, DagonR'lyeh, entre outros seres e locais misteriosos e subaquáticos. Mas, com o passar do tempo, a camada de horror foi se desbotando e num efeito semelhante ao vivido pelo escritor estadunidense quando lia ou via as aparições de vampiros, lobisomens, múmias e mortos-vivos, suas próprias criações deixaram de causar a reação esperada em sua proposta de horror cósmico. 

Para resgatar o grau de ameaça e horror que cada um dos seres criados por Lovecraft deveria proporcionar nas mesas de RPG, o profícuo escritor Kenneth Hite começou a trabalhar em uma série especial para a Pelgrane Press, onde expandia conceitos originais de lugares, criaturas e artefatos para os sistemas baseados no GUMSHOE da editora inglesa (Rastro de CthulhuThe Esoterrorists e Night's Black Agents). Com o título Kenneth Hite writes about stuff (Kenneth Hite escreve sobre coisas - em tradução livre), a iniciativa durou três temporadas com 33 suplementos de cerca de 15 páginas cada um. Esse material de referência ainda estava restrito ao idioma inglês, mas a Retropunk Publicações já traduziu dez livretos de criaturas, que estão disponíveis no site da editora, com o nome Criaturas Terríveis (para Rastro de Cthulhu)

Um dos primeiros livretos publicados trata acerca dos Abissais, um dos seres clássicos nas obras de H.P.Lovecraft (destaque para A Sombra de Innsmouth). A proposta do autor é sacudir os conceitos estabelecidos para a criatura aquática e dar mais letalidade a ela, surpreendendo os jogadores que estão acostumados com a sua descrição padrão.

Esse suplemento nos inspirou para a criação das fichas de monstros do folclore brasileiro baseados em abissais: o Ipupiara, a Iara e o Boto para Rastro de Cthulhu

A primeira parte de Criaturas Terríveis - Abissais traz uma explicação geral sobre fisiologia dos monstros aquáticos, apresentando o funcionamento do seu corpo e seus mecanismos de defesa. Aqui se apresentam novas regras para mudanças nas capacidades e habilidades da criatura, no intuito de surpreender os investigadores extrapolando o conceito padrão de um Abissal, como por exemplo concedendo-lhe a capacidade para uso de telepatia. 


Em Rastros de Cthulhu, Kenneth Hite já nos havia presenteado com um grande apanhado de conceitos e descrição do cenário. Nessa parte do suplemento ele vai além, e impõe a existência das criaturas ao longo da história. 

Passa-se a relacionar os Abissais com seres mitológicos de diversas culturas pelo globo terrestre, como Sereias (Europa); Adaro (Ilhas Salomão); Akhlut (Esquimós); Chiao-ren (China); Kappa (Japão); Kulullû (Assíria/Babilônia); Tritões e Nereidas (Grécia/Roma); e Nommo (Mali), o que abre espaço para a sua inclusão de maneira contextualizada como ameaças em novas aventuras por todo o mundo.
Por fim, Hite encerra o livreto com quatro ideias de cenários para aventuras que colocam abissais em foco, são elas: A Sombra sobre Dunwick; 1939 Entrará para a História; A Noite do Fóssil Vivo; e Falido em Marine Land, indicando bons ganchos para colocar em práticas as sugestões apresentadas nas 12 páginas do suplemento. 

A Retropunk Publicações acertou em cheio ao traduzir Criaturas Terríveis. O suplemento é objetivo e útil. O texto de Kenneth Hite aborda questões pertinentes para resgatar a letalidade dos seres criados por Lovecraft, inclusive possibilitando a inclusão de ameaças "mitológicas", o que não é o padrão em Rastro de Cthulhu. O único ponto fraco está nos desenhos de Rich Longmore, que acredito poderiam ser mais ameaçadores. 

Criaturas Terríveis para Rastro de Cthulhu - Abissais - tem 12 páginas em preto e branco (com capa colorida) em pdf. Ele pode ser adquirido na loja online da editora, clicando aqui

Uma cópia de Criaturas Terríveis para Rastro de Cthulhu - Abissais foi gentilmente cedida pela Retropunk Publicações para realização desta resenha.

Publicado originalmente no blog Donjon Master

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