Entrevista: Christopher Kastensmidt, fala sobre RPG nas escolas e o futuro de A Bandeira do Elefante e da Arara
Christopher Kastensmidt é professor, escritor, designer de jogos e criador do sistema de RPG A Bandeira do Elefante e da Arara, que renovou jogos de mesa com temática inspirada no Folclore e na História do Brasil. O autor mantém a simpatia e a simplicidade, mesmo com o sucesso dos livros produzidos (construído durante 10 anos de muita pesquisa) e gentilmente cedeu um pouco de seu tempo para responder algumas perguntas feitas pelo DonjonMaster. O resultado você lê abaixo:
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| Jacaré-açú, por SulaMoon |
Donjon Master - O RPG A Bandeira do Elefante e da Arara (vamos chamar de ABEA daqui pra frente) é um sucesso no Brasil e resgatou a temática com aventuras históricas nacionais. Como você se sente sendo o ponto de partida desse movimento?
Christopher Kastensmidt - É algo realmente inacreditável. Recebo mensagens toda hora de pessoas dizendo: “Estou criando aventuras para o jogo e é a primeira vez que estudo história na vida.” Fico muito feliz ao ouvir isso, porque criei o RPG desde o começo pensando no seu uso em sala de aula, para instigar os alunos a aprender mais sobre a história e cultura e, principalmente, a imaginar e sonhar. O que eu não imaginava era alcançar um público adulto tão rapidamente também.
Jogos de RPG foram uma influência muito forte na minha adolescência, na minha formação social e pessoal, e pensei no começo do projeto: “se eu consigo mudar a vida de um único adolescente da mesma forma, todo este trabalho vai valer a pena”. Dos relatos que já recebi, sei que alcancei (e superei) esta meta em pouco tempo. Realmente, é uma sensação única.
Donjon Master - Existe alguma previsão para lançamento de suplementos e material de apoio oficiais para o sistema de RPG ABEA? Quais os temas você pretende explorar nos suplementos vindouros: novos períodos históricos, regiões, o folclore nacional ou novas aventuras isoladas?
Christopher Kastensmidt - Vai ter bastante coisa, pode confiar. Já temos uns materiais de apoio no hotsite (acesse aqui), inclusive “A Lenda da Ave Dourada”, uma aventura gratuita escrita pelo grande autor de fantasia J. M. Beraldo. Até o final do ano vamos lançar outra aventura gratuita, a vencedora de um concurso entre os mediadores do grupo de Facebook. Também vai ter uma edição expandida do livro (já que a primeira edição esgotou em abril) e o primeiro suplemento das regras, “A Capitania Real do Rio de Janeiro”, por Luciano Campos Tardock, que também será lançado pela Devir. Este suplemento vai ter novos monstros, novos itens e uma aventura épica. Também tenho planos para um escudo do mestre.
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| Esqueleto, por Robson Michel |
Donjon Master - Você está produzindo uma nova edição de ABEA, com regras expandidas. Como aliar a simplicidade do material original com novos elementos de RPG? O que teremos de novo na segunda edição? Quem adquiriu a primeira edição vai poder contar com suporte para adequar a sua edição às regras expandidas? De que forma isso vai ocorrer?
Christopher Kastensmidt - Vejo esta edição mais como uma expansão do que uma mudança das regras originais. Coloquei algumas habilidades que a comunidade sentia falta, como “Furtividade” e “Adestramento de cães”. Adicionei ações de combate que faltaram, como “Proteger” e “Usar item”. Também expliquei melhor algumas partes. Não há nenhuma mudança no sistema em si, apenas extensões. O bom é que recebi centenas de sugestões dos jogadores e já consegui incorporar o que acho que faz mais sentido. Claro que tive que filtrar bastante, não tem como agradar a todos, tenho que permanecer fiel aos conceitos básicos que quero repassar.
Também expandi a bibliografia e acrescentei bastante arte nova. Vou disponibilizar um PDF com as mudanças, quem já adquiriu a edição original não vai precisar se preocupar, mas acho que a grande maioria vai querer esta edição nova, vai ser linda. Além do fato que aquela edição original já virou item de colecionador. Foi criado de forma especial, através da Lei de Incentivo à Cultura, e foi uma edição única (com preço único).
Donjon Master - Você participa ativamente da comunidade de ABEA e sempre estimula a produção de material novo para o rpg, inclusive promovendo um concurso de novos talentos. Como tem sido a experiência de se relacionar com quase 500 jogadores com ideias, gostos e idades diferentes?
Christopher Kastensmidt - Tem sido uma experiência maravilhosa, e claro, surpreendente. Nunca nos meus sonhos imaginei que ia ter, oito meses após o lançamento do livro, um grupo no Facebook com quase 500 mediadores. Os participantes são muito respeitosos, participativos e empolgados, trocando pesquisas e ideias o tempo inteiro. Também já criaram uns conteúdos excepcionais. Compartilhamos recentemente os links para estes conteúdos aqui.
Donjon Master - No lançamento de ABEA você teve o cuidado de destinar boa parte da tiragem para escolas. Como tem sido a experiência nas escolas acerca da aplicação do RPG na educação? Você tem recebido algum tipo de feedback das instituições de ensino?
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| Capacitação de alunos em Caucaia (CE) com Sérgio Magalhães do RPG Lúdico |
Christopher Kastensmidt - Como mencionei na primeira pergunta, criei o sistema desde o começo pensando nos alunos. Limitei-me a usar dados de seis lados sabendo que a maioria dos municípios brasileiros não tem acesso a outros. Usei termos diferentes, como “mediador” e “participante” para facilitar a aceitação do conteúdo em sala de aula. Nenhum professor quer chamar seus alunos de “mestre”, a palavra “mediador” soa bem melhor para atividades em sala de aula.
Temos muitos ótimos sistemas de RPG no Brasil hoje, o diferencial de ABEA é exatamente seu potencial em sala de aula. Alcancei cerca de 200 escolas de oito estados com a doação inicial, e sei que muitas outras adquiriram depois. As experiências têm sido muito positivas. No Ceará, por exemplo, já ouvi relatos de várias cidades, inclusive Caridade, Amontada, Fortaleza, Caucaia, Pacatuba e Sobral.
Quando criei o projeto, eu era obrigado a doar 10% da tiragem, mas escolhi doar quase 50% para escolas da rede pública. Apoiar a educação dos nossos futuros cidadãos é algo muito importante para mim, e acredito que o RPG pode ser uma ferramenta poderosa para a educação dos jovens.
Donjon Master - Apesar de todas essas atividades e empenho com o ABEA, no seu tempo livre o que você tem jogado ultimamente?
Christopher Kastensmidt - Bastante coisa! No lado digital, tive a honra de participar do betatest para dois RPGs nacionais: The Last Princess, de 40 Entertainment, baseado no universo de Tormenta, e Sword Legacy: Omen, de Firecast Studio e Fableware Narrative Design. Os dois games são sensacionais, com ótimas narrativas – a indústria nacional deu um grande pulo nos últimos anos. Também finalmente joguei The Witcher 3, e estou lendo os livros em paralelo. É um dos melhores games de todos os tempos, sem dúvida.
No lado analógico, ando jogando bastante jogos de tabuleiro com a família e amigos: King of Tokyo, Munchkin e Pandemia. Peguei umas coisas bem interessantes no Diversão Offline, como Jarmo (Mitra) e Fábrica dos Sonhos (Sherlock). De RPGs, mestrei várias vezes ABEA este ano, e comecei a jogar Hora de Aventura RPG com meu filho e os amigos dele.
Donjon Master - Que conselhos você gostaria de dar aos Donjonmasters e jogadores que estão lendo essa entrevista?
Christopher Kastensmidt - Mantenha uma dieta equilibrada, nunca invada a Rússia no inverno...ah, quer dizer sobre RPG? Bem, neste caso, ler muito é importante para manter a criatividade, tanto para jogadores quanto Donjonmasters.
Para quem cria aventuras, um dos maiores pecados que vejo é a criação de “personagens de papel”, pessoas que só servem para avançar a narrativa. Não pense em personagens em termos de seu papel na narrativa, pense nelas como pessoas de verdade. O que esta pessoa faz num dia normal? Quais são seus relacionamentos com outras pessoas no mesmo ambiente? Se pensar muito bem nestas questões antes de narrar, na hora de interpretar a aventura, os diálogos e interações vão ser bem mais ricas.
E a regra número um: diverta-se!
Donjon Master - Apesar de todas essas atividades e empenho com o ABEA, no seu tempo livre o que você tem jogado ultimamente?
Christopher Kastensmidt - Bastante coisa! No lado digital, tive a honra de participar do betatest para dois RPGs nacionais: The Last Princess, de 40 Entertainment, baseado no universo de Tormenta, e Sword Legacy: Omen, de Firecast Studio e Fableware Narrative Design. Os dois games são sensacionais, com ótimas narrativas – a indústria nacional deu um grande pulo nos últimos anos. Também finalmente joguei The Witcher 3, e estou lendo os livros em paralelo. É um dos melhores games de todos os tempos, sem dúvida.
No lado analógico, ando jogando bastante jogos de tabuleiro com a família e amigos: King of Tokyo, Munchkin e Pandemia. Peguei umas coisas bem interessantes no Diversão Offline, como Jarmo (Mitra) e Fábrica dos Sonhos (Sherlock). De RPGs, mestrei várias vezes ABEA este ano, e comecei a jogar Hora de Aventura RPG com meu filho e os amigos dele.
Donjon Master - Que conselhos você gostaria de dar aos Donjonmasters e jogadores que estão lendo essa entrevista?
Christopher Kastensmidt - Mantenha uma dieta equilibrada, nunca invada a Rússia no inverno...ah, quer dizer sobre RPG? Bem, neste caso, ler muito é importante para manter a criatividade, tanto para jogadores quanto Donjonmasters.
Para quem cria aventuras, um dos maiores pecados que vejo é a criação de “personagens de papel”, pessoas que só servem para avançar a narrativa. Não pense em personagens em termos de seu papel na narrativa, pense nelas como pessoas de verdade. O que esta pessoa faz num dia normal? Quais são seus relacionamentos com outras pessoas no mesmo ambiente? Se pensar muito bem nestas questões antes de narrar, na hora de interpretar a aventura, os diálogos e interações vão ser bem mais ricas.
E a regra número um: diverta-se!
Publicado originalmente no blog Donjon Master



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