Harlem Unbound: Empoderamento, Arte e História em Rastro e Chamado de Cthulhu

A resenha de Harlem Unbound foi escrita com uma cópia gentilmente cedida por seu autor. 
A primeira impressão que se tem de Harlem Unbound é sobre sua beleza. O livro, com 276 páginas coloridas com destaque para uma paleta de cores com vermelho, branco e preto, utiliza técnicas artísticas variadas, com destaque para a belíssima capa em xilogravura.

Seu conteúdo não deixa por menos e também é de cair o queixo. O autor Chris Spivey brinda seus leitores com uma detalhada (mas nunca cansativa) pesquisa sobre uma América do Norte pouco retratada nos livros de História - a dos Negros e Imigrantes Europeus. Esse é um suplemento de cenário que trata de questões raciais, de empoderamento, e liga isso tudo aos Mitos de Cthulhu.

Harlem Unbound ganhou vida por meio de um financiamento coletivo na plataforma do Kickstarter que contou com o apoio de 644 pessoas, e foi publicado no final de 2017. A proposta foi desenvolver um livro de RPG compatível com os sistemas de Rastro de Cthulhu e do Chamado de Cthulhu contando a história da criação do Harlem, bairro de Manhattan, em Nova Iorque, localidade predominantemente ocupada por moradores negros e imigrantes, e reflexo das grandes mudanças passadas por todo os Estados Unidos.


Um dos pontos interessantes do livro é tornar protagonistas personagens negros e imigrantes europeus (como irlandeses, poloneses e italianos) justamente utilizando como inspiração os Mitos de Cthulhu, escritos por H.P.Lovecraft (um autor fruto de seu tempo, ou seja,  que produziu uma obra racista e xenófoba). Assim como Hergé (criador de Tintim), Lovecraft abordava em seus livros uma visão pouco positiva sobre qualquer etnia que não fosse a branca. É importante fazer a devida avaliação do período histórico, sob pena de comprometer toda a criação desses dois autores marcantes.

Desde seu lançamento, Harlem Unbound vem chamando atenção para esferas que ultrapassam o lúdico do RPG. Três renomados museus estadunideneses adquiram exemplares do livro para compor seus acervos, um marco importante para o segmento. São eles: Metropolitan Museum of Art da cidade de Nova Iorque; o Smithsonian Institution Anacostia Community Museum em Washington, D.C.; e o Newark Museum em Newark, Nova Jersey.


O QUE VEM NO LIVRO?

A composição do livro é didática e segmentada, deixando a cargo de divisões auto-intituladas a sua divisão de conteúdo.

Song of Harlem - as primeiras 22 páginas trazem um resgate histórico da criação do Harlem destacando figuras e movimentos sociais importantes nesse contexto, como por exemplo os Harlem Hellfighters, que foram negros que lutaram na Primeira Guerra Mundial - e depois condecorados por sua bravura. Esse segmento do livro trás também uma linha do tempo com fatos marcantes da formação do bairro.

Harlem Herself - segue com 10 páginas detalhando os limites geográficos do bairro, com mais algumas pitadas de histórias curiosas e sugestões de ganchos para aventuras. Como, por exemplo, o relato constante de avistamento de jacarés nos esgotos do Harlem em 1930. As descrições da época apontavam para seres de cinco metros de comprimento com o corpo coberto por escamas e de brilhantes olhos vermelhos ou verdes.

Como o clima era frio e incompatível para que esse tipo de réptil pudesse prosperar, os casos eram tratados como imaginação fértil ou efeito da ingestão de álcool ou drogas. Mas... Haveria alguma verdade nos relatos dessa lenda urbana?


Harlemites - em 22 páginas é apresentado o processo de criação dos investigadores residentesno Harlem, adicionando novas opções e profissões, sempre direcionando para aquelas mais comuns da região como músicos, trompetista, saxofonista, hellfighters, estivadores, pintores, escritores, etc.

System Stuff - 18 páginas com conteúdo para o Guardião entrar no clima e fazer as alterações necessárias nas regras dos sistemas para que se enquadrem no foco da proposta original do jogo, que é "concentrar-se na realidade corajosa de ser uma pessoa de cor em uma sociedade dizendo que você não importa e que você deve ser tratado como menos do que humano. Apesar de tudo isso, você ainda encontra coragem para lutar contra os Mitos de Cthulhu e sobreviver para um novo dia".

Storytelling - talvez seja o capítulo mais importante do livro. Em 18 páginas, Chris Spivey aborda os aspectos mais impactantes do racismo (nos anos 1930 e atualmente) e repassa algumas orientações de como criar histórias dentro do universo de Harlem Unbound. Este é um livro para demonstrar respeito, sensibilidade e dar o devido destaque aos negros. Também faz parte deste capítulo novos adversários sobrenaturais (ligados à mitologia e crença da época) e a estatística de coadjuvantes.

Scenario Hooks e Supporting Cast apresenta em 22 páginas ideias para aventuras e personagens prontos para um jogo no cenário descrito no restante do livro. E Harlem Unbound, em suas últimas 142 páginas, traz cinco aventuras prontas: Harlem Hellfighters Never DieHarlem (K)NightsThe Contender: A Love StoryDreams and Broken Wings e Souls of Harlem.

Harlem Unbound é um livro necessário e desafiador. O Brasil, assim como os Estados Unidos, vive sobre um aparente véu de igualdade racial, que infelizmente ainda não se tornou a realidade presente. Obras assim, que mostram como o rpg pode servir como instrumento igualitário, reparador e de empoderamento deveriam estar nas estantes da maioria dos Guardiões e jogadores. Spivey, por meio de um texto habilidoso, acompanhado de uma arte belíssima, apresenta uma faceta nossa muito presente, onde os Mitos de Cthulhu não são o maior desafio.

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Postado originalmente no blog Donjon Master

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