Maria Ortiz: A tentativa de invasão holandesa na Capitania do Espírito Santo


Em nossa segunda postagem da série sobre A Capitania do Espírito Santo para o sistema de RPG A Bandeira do Elefante e da Arara, vamos resgatar a história de Maria Ortiz, uma personalidade capixaba de grande renome na capital.

Maria Ortiz é reconhecida pelo ato de coragem em ter iniciado a expulsão dos invasores holandeses da Vila de Nossa Senhora da Vitória em 1625 e entrou para a História como uma das primeiras heroínas brasileiras.

Maria Ortiz (ou Maria Urtiz) nasceu em 1603 na Vila de Nossa Senhora da Vitória (atualmente, Vitória, capital do Espírito Santo). Filha de espanhóis que vieram para o Brasil em uma das imigrações estimuladas por Felipe II, rei da União Ibérica (Espanha e Portugal), passou sua infância, adolescência e início de vida adulta residindo na metade da chamada ladeira do Pelourinho (hoje, Escadaria Maria Ortiz) no primeiro andar de um sobrado branco, onde no térreo seu pai mantinha uma taberna (infelizmente, o nome do estabelecimento não foi registrado em documentos históricos).
Não há registro apurado sobre os primeiros anos de vida de Maria Ortiz, mas é possível inferir que ela falava espanhol e português e foi alfabetizada, mas não seguiu a vida acadêmica. Por conta do contato com a taberna do pai, onde provavelmente trabalhou para ajudar no sustento da família, a jovem não era uma donzela recatada, e possivelmente aprendeu algumas artimanhas e desenvolveu habilidades para jogos e trapaças na taberna sobre sua residência.

Alguns autores, em um processo revisionista da história, chegam a afirmar que Maria Ortiz teria sido prostituta em sua vida adulta, mas não há nada que confirme o fato (embora isso possa ser utilizado como gancho nas aventuras). 

Preparamos a ficha dessa personalidade para A Bandeira do Elefante e da Arara, você pode clicar na imagem acima ou baixar a ficha personalizada no modelo padrão (versão pdf) clicando aqui.

A INVASÃO HOLANDESA NA VILA DE NOSSA SENHORA DA VITÓRIA

Os Holandeses, então em guerra com a União Ibérica, enviaram várias esquadras para o Brasil com o objetivo de tomar territórios, controlar o comércio de açúcar e especiarias e iniciar uma colonização no Novo Mundo. Em 1624, atacaram e ocuparam Salvador, na Capitania da Baía de Todos os Santos (Bahia), e no ano seguinte aportaram na Capitania do Espírito Santo. Apesar das diversas incursões os Holandeses só tiveram verdadeiro sucesso em 1630, quando invadiram as cidades de Olinda e Recife, na Capitania de Pernambuco, e mantiveram controle da região por algumas décadas. 

Em 12 de março de 1625, o capitão holandês Pieterszoon Piet Heyn aporta com oito naus na Vila de Nossa Senhora da Vitória. Com população menor que a de Vila Velha, tomar Vitória parecia ser uma tarefa fácil para o militar e seus 300 homens, que se posicionaram em diversos pontos da praia e nas ilhas. Boa parte das mulheres e crianças da vila foi orientada a fugir para a roça, em pontos seguros longe da vila. Aos homens que ficaram o donatário da Capitania do Espírito Santo, naquela época Francisco de Aguiar Coutinho, distribuiu as poucas espingardas que tinha sob seu poder para defenderem a colônia. 

Uma reunião de emergência foi convocada e o pai de Maria Ortiz fecha a taberna e segue para o Paço Municipal, que ficava na parte alta da Vila, e concentrava todo o armamento disponível aos defensores, inclusive com uma roqueira (tipo de canhão que utilizava pedras como munição).

Os holandeses aproveitam a pouca resistência geral do local e direcionam o embate para onde estão os homens, com o objetivo de dominá-los definitivamente. O ponto de passagem óbvio para a região alta onde os defensores se apuseram era justamente a ladeira do Pelourinho, que dividia as partes baixa e alta da Vila de Nossa Senhora da Vitória. 

Apesar da recomendação de seu pai para que tivesse cuidado, Maria Ortiz ao ver a proximidade do exército inimigo decide que deve fazer algo para ajudar. Enche todas as panelas de sua casa com água e as coloca no fogo. Quando a tropa holandesa se posiciona em frente ao sobrado, ela escolhe o militar mais chamativo (justamente o capitão Pieterszoon Piet Heyn) e joga o líquido fumegante, escaldando o estrangeiro. Maria repete a tarefa por várias vezes, com a ajuda da mãe, e termina por deixar os estrangeiros sem reação imediata.   

Os vizinhos, aproveitando o momento de vacilo dos holandeses, começam a seguir o exemplo e arremessar paus, pedras e o que houvesse ao alcance na tropa. Pegos de surpresa e bastante feridos, não resta outra opção aos invasores senão dar meia-volta e retornar para a praia.  Aos gritos, Maria Ortiz avisa aos homens do ocorrido, que correm para combater os soldados abalados. No final deste dia, o capitão Pietersz contabiliza a perda de 38 homens sem conseguir qualquer conquista. 

A RESISTÊNCIA CAPIXABA

Capitão Piet leva dois dias para reorganizar sua tropa. O período prolongado sem nenhum ataque permitiu que os capixabas pudessem traçar uma estratégia de resistência e pedir reforços aos vizinhos cariocas, que desembarcaram quarenta portugueses e setenta índios. Assim, o donatário da Capitania do Espírito Santo, Francisco de Aguiar Coutinho, pode responder à invasão à altura. Em 25 minutos de combate intenso, onde apenas um dos defensores foi morto, os holandeses bateram em retirada, seguindo para Salvador.  

Após a vitória, a vila seguiu em comemoração pelo feito. Maria Ortiz foi homenageada por seu pai, Juan Orty Y Ortiz, que presenteou a filha com uma coroa de margaridas amarelas. Maria Ortiz seguiu uma vida normal até sua morte, em 25 de maio de 1646, com 42 anos. 

Seu ato heróico rendeu mais homenagens póstumas, com a mudança do nome da ladeira onde morava para Ladeira Maria Ortiz em 1889. A ladeira virou escadaria, mantendo o nome da heroína. Na década de 1970, Maria Ortiz virou nome de escola municipal e bairro residencial, com ocupação aproximada de 11.500 moradores.

SOBRE O INVASOR, CAPITÃO PIETERZOON PIET HEYN 

Os mestres e jogadores de A Bandeira do Elefante e da Arara, além de contarem com a opção de ter Maria Ortiz em suas aventuras, podem acrescentar em temível vilão em suas histórias em terras brasileiras - capitão Pieterszoon Piet Heyn.  

Pieterszoon Piet Heyn (25 de novembro de 1577 - 18 de junho de 1629), foi um brilhante almirante e oficial naval holandês. Entre outras realizações, tomou a famosa Armada Espanhola de Prata, perto da baía de Matanzas, e chegou à mesma baía. A Armada seguia, do México, para a Espanha.

Em 1623, ele se tornou vice-almirante da nova Companhia das Índias Ocidentais e rumou para o Caribe no ano seguinte. No Brasil, brevemente ele capturou a colônia portuguesa em Salvador, conduzindo pessoalmente o assalto a fortaleza da cidade. Tentou em 1625 um ataque à Vila de Vitória, na Capitania do Espírito Santo. Ali foi frustrado graças a iniciativa de uma jovem de nome Maria Ortiz. 

Então ele atacou Luanda em Angola, mas não conseguiu capturar a cidade. Em uma posterior invasão em 1627 para reconquistar a Bahia, ele falhou, mas capturou mais de trinta navios portugueses, com uma grande carga de açúcar. Capitão Piet morreu na batalha naval de Dungerness, após ser atingido no ombro esquerdo por uma bala de canhão. 

O capitão era disciplinado e rigoroso com sua tripulação. Não aceitava o contato com índios, escravos e membros de outras religiões que não fossem a católica, normalmente determinando a morte de quem não se enquadrava em seu padrão. 

Publicado originalmente em parceria com Arthur Pinto de Andrade no blog Donjon Master 

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