Figuras históricas são naturalmente perfeitas para figurar entre os coadjuvantes do sistema de RPG A Bandeira do Elefante e da Arara, por se tratar de um sistema que se propõe em um Brasil colonial fantástico.
Pensando nisso, Padre José de Anchieta será o nosso ponto de partida para a inclusão da Capitania do Espírito Santo no cenário de capa e espada criado por Christopher Kastensmidt ambientado no período colonial.
Trataremos inicialmente de contextualizar a vida e obra do padre José de Anchieta, que foi beatificado em 1980 e elevado a figura de santo pela Igreja Católica em 2014, com sua canonização.
Sua importância é ressaltada todos os anos e conta com a homenagem do primeiro roteiro cristão das Américas - os Passos de Anchieta (realizado entre os dias 31/05 a 03/06), resgatando o caminho seguido pelo santo em seus últimos dias de vida, entre as cidades de Vitória e Anchieta (originalmente Reritiba), no Espírito Santo.
A VIDA DE JOSÉ DE ANCHIETA
Anchieta teve uma vida marcante. Foi o primeiro dramaturgo, gramático e poeta nascido nas Ilhas Canárias. Foi autor da primeira gramática da língua Tupi e com seus escritos e poemas é considerado um dos primeiros autores da literatura brasileira. Os Mestres que desejem entrar no clima e conhecer um pouco mais sobre os livros de José de Anchieta, podem procurar por “Poema à Virgem”, “Os feitos de Mem de Sá”, e “Arte e Gramática da língua mais usada na costa do Brasil”. (google neles).
Nascido na ilha de Tenerife, nas Canárias, em 19 de Março de 1534, filho de espanhóis, viveu com sua família até os 14 anos, quando se mudou para Coimbra, Portugal, onde estudou filosofia no Real Colégio das Artes e Humanidades. Em 1551, aos 17 anos, ingressou na Companhia de Jesus como noviço. Dois anos depois aporta em Salvador, Capitania da Baía de Todos os Santos, para auxiliar o padre Manoel da Nóbrega na missão de evangelizar os indígenas nativos brasileiros.
Apesar das dores que sentia, por conta de uma escoliose formada por ser portador de tuberculose óssea, padre Anchieta não ficou parado. Três meses depois de chegar em Salvador, partiu para a Capitania de São Vicente e durante a viagem aprendeu a falar o idioma Tupi-Guarani e catequizou em latim os indígenas que manteve contato. Nesse período escreveu "Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil", porém esta obra somente foi publicada em Coimbra anos mais tarde em 1595.
Em 25 de janeiro de 1554 fundou o Colégio de São Paulo, escola para jesuítas, considerado o primeiro movimento para a fundação futura da cidade de São Paulo. Além de Anchieta, viviam no local 130 pessoas. Em 1563 intermediou as negociações entre portugueses e indígenas na Confederação dos Tamoios, se oferecendo como refém dos índios, enquanto padre Manuela da Nóbrega retorna a São Vicente para finalizar as negociações de paz.
Lutou contra os franceses estabelecidos na França Antártica na Baía da Guanabara; foi companheiro de Estácio de Sá, a quem assistiu em seus últimos momentos (1567). Em 1566, foi enviado à Capitania da Bahia com o encargo de informar ao governador Mem de Sá do andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Por esta época, foi ordenado sacerdote aos 32 anos de idade.
Em 1569 padre Anchieta fundou a povoação de Reritiba (atual Anchieta), na Capitania do Espírito Santo. Com a derrota dos franceses, foi nomeado diretor do Colégio dos Jesuitas do Rio de Janeiro entre 1570 e 1573. Em 1577, foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos, sendo substituído em 1587 a seu próprio pedido. Retirou-se para Reritiba, mas teve ainda de dirigir o Colégio do Jesuítas em Vitória. Em 1595, obteve dispensa dessas funções e conseguiu retirar-se definitivamente para Reritiba onde veio a falecer, sendo sepultado em Vitória.
O PERSONAGEM EM A BANDEIRA DO ELEFANTE E DA ARARA
Por conta do período histórico em que ABEA é proposto você poderá aproveitar o padre Anchieta em suas aventuras de diversas formas possíveis, seja como coadjuvante ou mesmo como personagem jogável enquanto era um noviço (confira na imagem).
Reconhecido humanista, Anchieta defendia os indígenas dos abusos e maus tratos dos colonizadores portugueses. Essa personalidade é sua maior característica de personalidade e mestres podem (e devem) utilizar esse fato real como motivador nas aventuras, ele sempre terá uma tarefa a ser feita. Seja fazendo com que os personagens o auxiliem na proteção de uma comunidades tupi, ou combatendo um grupo de escravagistas portugueses, ou mesmo afastando seres folclóricos que prejudicam os povos.
Em geral Padre José de Anchieta dividirá seu tempo entre as capitanias do Rio de Janeiro e Espírito Santo, a depender do ano em que se passam as aventuras, e sua presença em grandes feitos históricos pode ser utilizada como gancho nas aventuras.
Padre Anchieta participou ativamente de dois conflitos maiores que também podem render ganchos de aventura. O primeiro durante o período em que foi feito refém dos Tamoios, por volta de 1563, quando Anchieta manifesta seu primeiro milagre. Durante uma pregação aos indígenas, Anchieta levita e espanta a todos os presentes, passando a ser considerado um grande feiticeiro.
Reconhecido humanista, Anchieta defendia os indígenas dos abusos e maus tratos dos colonizadores portugueses. Essa personalidade é sua maior característica de personalidade e mestres podem (e devem) utilizar esse fato real como motivador nas aventuras, ele sempre terá uma tarefa a ser feita. Seja fazendo com que os personagens o auxiliem na proteção de uma comunidades tupi, ou combatendo um grupo de escravagistas portugueses, ou mesmo afastando seres folclóricos que prejudicam os povos.
Em geral Padre José de Anchieta dividirá seu tempo entre as capitanias do Rio de Janeiro e Espírito Santo, a depender do ano em que se passam as aventuras, e sua presença em grandes feitos históricos pode ser utilizada como gancho nas aventuras.
Além disso, na retomada do povoado de São Vicente (futura cidade do Rio de Janeiro), padre Anchieta auxilia Estácio de Sá contra os invasores franceses. Em duas situações (julho de 1565 e junho de 1566) mais um milagre acontece e é registrado no imaginário popular como a Lenda de São Sebastião (que, aparentemente, não tem relação direta com padre Anchieta, mas é muita coincidência ter acontecido exatamente quando ele estava em São Vicente).
Durante um dos conflitos entre tamoios e portugueses, um barco lusitano de madeira foi emboscado pelos indígenas. Ao verem um conterrâneo em apuros, vigias portugueses seguiram com quatro canoas para o salvamento. Quando em perseguição aos Tamoios, as embarcaçôes portuguesas também foram cercadas, de pouco adiantando os tiros da roqueira instalada em uma das delas. No auge da luta, a pólvora para a roqueira explodiu na canoa portuguesa, erguendo no ar uma espessa nuvem de fumaça.
Neste momento, a mulher do cacique, tomada de pânico, começa a gritar, alastrando o pânico entre os Tamoios, que debandaram. Os povoadores, atribuindo o fato a um milagre, acorreram à Capela de São Sebastião, rendendo-lhe graças pela salvação de suas vidas. Nascia, desse modo, a lenda atribuída aos Tamoios, da aparição de um jovem guerreiro vestido com armadura, em meio ao combate, passando de uma para outra canoa portuguesa, causando pânico ao inimigo.
Padre Anchieta também era dono de memória fotográfica e em mais de uma situação pode comprovar esse dom. Durante seu cativeiro, compôs o "Poema à Virgem", escrevendo seus versos na areia da praia e memorizando cada linha. Depois de liberto, trasladou tudo para o papel e editou o texto para publicação.
Padre Anchieta escolheu a Capitania do Espírito Santo para passar seus últimos anos. Em 1565 funda o povoado de Reritiba (que significa "lugar de muitas ostras" em tupi). Por conta de afazeres na capital Vitória, percorre a pé os 73 quilômetros de distância entre os dois locais constantemente.
Seja qual for a sua escolha, colocá-lo como um personagem jogável ou um coadjuvante, tenha em mente que padre Anchieta era um jesuíta evangelista, que participou como mediador de conflitos entre indígenas e portugueses, fundou escolas e igrejas, e até mesmo uma vila, e participou nos conflitos de expulsão de incursões estrangeiras ao país. Ele é ativo, e importante!
UMA BREVE DESCRIÇÃO DA CAPITANIA DO ESPÍRITO SANTO
Diferentes de outros Estados, o Espírito Santo não é famoso por uma mitologia destacada. Porém, por acaso, padre Anchieta, em um de seus escritos, relata a visão do Curupira por um agricultor e o terror que o homem sentiu ao encontrar o ser feérico.
O Espírito Santo possui um litoral recortado e a presença de muitos rios, além de grande mata atlântica que cobre toda a região ampla até a serra extensa. A culinária baseada no consumo de peixe e pratos típicos de frutos do mar, muito abundantes na região. Um local que à época da colonização atraía o imaginário dos colonizadores para o fantástico.
O Espírito Santo possui um litoral recortado e a presença de muitos rios, além de grande mata atlântica que cobre toda a região ampla até a serra extensa. A culinária baseada no consumo de peixe e pratos típicos de frutos do mar, muito abundantes na região. Um local que à época da colonização atraía o imaginário dos colonizadores para o fantástico.
A Capitania do Espirito Santo está cinqüenta lagoas de Porto Seguro em vinte graus, da qual e Capitão e governador Vasco Fernandes Coutinho. Tem um engenho somente, tira-se dele o melhor assucre que há em todo o Brasil. Pode ter até cento e oitenta vizinhos. Há dentro da povoação um mosteiro de padres da Companhia de Jesus. Tem um rio mui grande onde os navios entram, no qual se acham mais peixes-bois que noutro nenhum rio desta Costa. No mar junto desta Capitania matam grande cópia de peixes grandes e de toda maneira, e também no mesmo rio há muita abundância deles. Nesta Capitania há muitas terras e mui largas onde os moradores vivem mui afastados assim de mantimentos da terra como de fazendas. E quando se tomou a fortaleza do Rio de Janeiro desta mesma Capitania do Espirito Santo sustentaram toda a gente e proveram sempre de mantimentos necessários enquanto estiveram na terra os que defendiam.
Pero de Magalhães Gândavo. Tratado do Brasil. 1570
Antes da colonização portuguesa, a região era habitada por diversas tribos indígenas, todas pertencentes a ramo Tupi. No litoral estavam os Goitacás e no interior, os Botocudos. As duas tribos eram hostis e belicosas, mas só os Botocudos praticavam a antropofagia. O primeiro contato com os lusitanos aconteceu no dia 23 de maio de 1535, quando a nau Glória desembarcou numa enseada bem próxima ao morro da Penha, no que seria chamada no futuro de Vila Velha.
O primeiro donatário da faixa de terra que compreendia a foz do rio Mucuri ao rio Itapemirim foi Vasco Fernandes Coutinho. Ele e mais sessenta degradados saíram de Portugal com o objetivo de explorar e estabelecer um povoado na nova terra. Batizaram a capitania de Espírito Santo pois desembarcaram no domingo de Pentencostes, mas não imaginavam que fossem ser recebidos com resistência do povo local.
O desembarque foi sob as flechas dos goitacás, havendo necessidade de utilizar duas cargas de artilharia da embarcação para que os indígenas debandassem, permitindo a posse da terra pelo donatário. Ali mesmo, decidiu-se erguer a povoação que, mais tarde, seria conhecida como Vila Velha, principiando-se as primeiras habitações e uma fortificação (o Fortim do Espírito Santo). Em 1551 foi fundada uma nova vila, batizada de Nossa Senhora da Vitória, na ilha de Santo Antônio. O local foi escolhido por ser um ponto estratégico de combate aos indígenas, que continuavam atacando os portugueses.
Os Mestres de ABEA contam com farto material para elaborar suas aventuras em solo capixaba. Os Botocudos podem surgir como adversários iniciais, principalmente por serem antropófagos. A mitologia tupi pode ser incluída também, mas, é possível estabelecer uma relação entre a estadia de padre Anchieta e a pretensa falta de relatos mais numerosos de seres sobrenaturais em território espiritossantense.
Além disso, a capitania do Espírito Santo conta com um dos santuários religiosos mais antigos do Brasil - o Convento da Penha.
Além disso, a capitania do Espírito Santo conta com um dos santuários religiosos mais antigos do Brasil - o Convento da Penha.
Construído no alto de um penhasco, a 154 metros de altitude, o Convento da Penha é fruto da visão e devoção de frei Pedro Palácios. Reza a lenda que o religioso espanhol morava em uma gruta situada aos pés da ladeira da futura igreja, onde mantinha um quadro de Nossa Senhora das Alegrias. A obra de arte desapareceu três vezes e em todas as ocasiões fora encontrado no alto do mesmo morro. Movido pela fé, convenceu o donatário a fazer a construção. As obras tiveram início em 1558 e foram concluídas em 1570, com a chegada de uma imagem de Nossa Senhora da Penha, encaminhada de Portugal. Ao ver tudo concluído, o religioso, já combalido pela idade, morreu.
O Convento da Penha pode ser utilizado como um ponto de encontro jesuíta, além de um local sagrado para o combate de seres malignos. Há a suspeita de que, durante sua edificação, foram construídos inúmeros túneis, que serviriam como rota de fuga. Por conta disso, o Convento poderia ser um tipo de prisão mística de algum ser sobrenatural, como o Pai do Mato?
Em futuras postagens trataremos das invasões francesas e holandesas a capitania do Espírito Santo e de figuras como Maria Ortiz, que comandou a expulsão de alguns corsários utilizando água fervente.
Publicado originalmente em parceria com Arthur Pinto de Andrade no blog Donjon Master



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